segunda-feira, 18 de julho de 2022

Impessoal.

Toda vez que o fim me reencontra traz nos olhos o abismo.

Então, olha pra mim e diz: - Não pula.

E a consequência de ser encontrado é que

nenhum alerta pode evitar a gravidade. 

O abismo vê que estou sepultado nesse corpo.

E que ainda existe vida em algumas memórias.

Não quer me fazer mal, no máximo, talvez quisesse me enxergar nas partes vivas. 

Nós já nos reconhecemos.

Então, toda vez, enquanto me vê caindo, olha pra mim e diz: - Não pula. 

Eu, sepultura andante, caio fraturando memórias vivas. Fico ileso, enquanto me machuco muito.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

 ***


Nem sempre interessa 

descrever a paisagem

ou inventar óculos.


Às vezes, 

já é coisa pronta,

o toque à espera do tato.


E o delírio:

nem é visão,

nem é miragem.

É inversão do desejo.


Às vezes, 

já é coisa pronta,

mas se inventa a cegueira. 


Imanente à humanidade.

Singular transcendental.

Mergulha no delírio,

e devolve os antigos 

mesmos olhos.


É sobre revelar o óbvio,

o grande horizonte.


Das artes


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Imagem: 

"Banhistas à noite", 1905, Károly Ferenczy (1862 - 1917). Óleo sobre tela. 


domingo, 10 de julho de 2022

Nem eu sei dizer exatamente o porquê, mas talvez não seja da maneira como acredito que é. Então, também porque desconheço o é, eu sou incapaz de realizar. Às vezes, eu suponho que meu fracasso evita equívocos maiores, sofrimentos maiores, ou, essa pode ser a forma confortável de admitir minha incapacidade. Eu tenho uma inveja ingênua das pessoas que realmente se alcançam nesse sentido, não como alguém que pretende destituir o outro daquilo que é conquista dele, mas como alguém que admira uma obra de arte e deseja habilidades semelhantes às do artista. Mas, eu suspeito que me faltem os requisitos necessários ao desenvolvimento dessa capacidade, em algumas ocasiões eu sou um deserto frio ou só sou alçando pelos que estão frios ou sou cego às paisagens dos que me oferecem calor. 

Sem fugir da minha responsabilidade, porém, sei que seria muito pretensioso me imaginar a causa única, e, se todos os meus sucessos têm causa também em outros além de mim, por que me ver sozinho na causa isolada dos meus fracassos? 


A vida é muito mais sobre desejo.

A vida é bem maior do que qualquer culpa.


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Imagem abaixo: encontrada no Facebook. 






domingo, 3 de julho de 2022

Tem gente que eu acho tão esculturalmente linda que me sinto feliz desde a oportunidade de ficar admirando. Claro, a inteligência e outros aspectos também são igualmente admiráveis - e atualmente soa mais politicamente correto elogiar a inteligência e outros aspectos constitutivos dos seres e coisas -, mas a beleza física/material tem um quê de doação involuntária por parte da pessoa linda, coisa linda. As coisas e seres fisicamente lindos se doam espontaneamente aos seus apreciadores e eu isso é algo muito encantador - quase um tipo de altruísmo estético involuntário. 


Eu acho um grande pesar que essa época dê tanto destaque à beleza física/material imediata e ao mesmo tempo crie a ilusão de ser ela um bem excludente de outras virtudes, e/ou menor porque é explicitamente efêmera. O estranho é que as mesmas razões que podem deflagrarem a decrepitude da inteligência, por exemplo, são razões que todos amenizam com pesar seus danos, reconhecem o percurso de deterioração e acolhem com respeito suas consequências, no entanto, em se tratando da beleza a acusam de ser passageira como se fosse uma falha de qualidade.


Abaixo, imagem encontrada na página do Facebook: "Soái Tây".



sexta-feira, 1 de julho de 2022

No convexo dos seus olhos

crescem meus horizontes.

E eu continuo,

depois e apesar de mim.

Solto no tempo,

vibrante e sereno.

Euforia silenciosa, 

acorda no canto dos olhos,

porque eu nos vi passando. 

Talvez você nem saiba. 

Onde dorme o umbigo do tempo?




domingo, 26 de junho de 2022


Um espelho líquido incandescente,

esfericamente curvo sobre si mesmo,

capaz de sentir e que se percebe em gradações 

multivariáveis: conscientes ou não. 

Talvez esteja continuamente expandindo e

à medida que recombina seus reflexos faísca 

criando novos olhos-paisagem. 







O imaginativo e simbólico de um grupo de pessoas é cultura; arte é a função metalinguística da cultura - modos da cultura falar de si mesma.