domingo, 18 de outubro de 2026

 

Eu vivo em uma encruzilhada, talvez uma das mais importantes encruzilhadas da minha cidade. Porém, só aos poucos comecei a suspeitar que a encruzilhada também vivia em mim. Devagar, notei que eu permaneço num lugar que é um eixo de caminhos contrários. Na encruzilhada o fluxo só é possível porque as pessoas, em sentidos opostos, desviam umas das outras - essa é máxima eficiência em uma encruzilhada: deviar corretamente. No entanto, para mim coube: ficar, sair e voltar, para ficar de novo, no ponto exato em que outros estão de passagem. Me dou ao luxo de pensar no dia em que serei surpreendido ou partirei definitivamente. Mas, até agora, só o tempo tem me ensinado existir nessa condição enquanto me faz companhia.

 

A Caça ao Leão de Adriano e Antínoo (Pancrates de Alexandria)

«...E mais veloz que o corcel de Adrasto, que outrora salvou facilmente seu senhor no meio do furor da batalha, tal era o cavalo sobre o qual Antínoo aguardava o leão mortífero. Com a mão esquerda segurava as rédeas do freio, e na direita empunhava uma lança de ponta de diamante.

Primeiro Adriano o feriu com sua lança guarnecida de bronze, mas não o matou; pois, de propósito, errou o golpe mortal, desejando testar ao máximo a firmeza da pontaria do seu belo Antínoo, prole digna de heróis.

Ferida, a fera tornou-se ainda mais furiosa; com as patas arranhava a terra dura com raiva, e a poeira subia em nuvens, escurecendo a luz do sol. Ele rugia e se agitava como uma vaga do mar encapelado, quando o vento Zéfiro se ergue após a ventania da Trácia.

Avançou diretamente contra ambos, açoitando com a cauda os flancos e as coxas; seus olhos sob as sobrancelhas cintilavam um fogo terrível, e das mandíbulas famintas lançava uma chuva de espuma enquanto rangia os dentes pontiagudos. Da sua cabeça enorme e do pescoço felpudo a juba erguia-se hirta; nos membros era espessa como ramos de árvores, e no dorso... era como pontas de lanças afiadas.

Dessa forma ele investiu contra o jovem divino, contra Antínoo, como o antigo Tifão contra Zeus, o matador de giants...

...[lacuna no papiro]...

...vendo-o vir velozmente... em seu cavalo, Antínoo... partiu a base do pescoço e os músculos do pescoço, golpeando... e a fera caiu estendida por terra... para o jovem heroico, matador de feras...»

Referências Bibliográficas

1. Papiro Original:

o P.Oxy. VIII 1085 (The Oxyrhynchus Papyri, Volume VIII, ed. B. P. Grenfell & A. S. Hunt, Egypt Exploration Fund, Londres, 1911, nº 1085, pp. 73–77).

o TM / DCLP ID: 62353 (Trismegistos / Digital Corpus of Literary Papyri).

2. Edição Crítica e Coleção de Fragmentos Épicos:

o PAGE, Denys L. (Ed.). Select Papyri, Volume III: Poetry. Loeb Classical Library L360. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1941, pp. 516–521.

o LLOYD-JONES, Hugh; PARSONS, Peter. Supplementum Hellenisticum. Berlim / Nova Iorque: Walter de Gruyter, 1983, fr. 601.

3. Fonte Histórico-Literária Complementar:

o ATENEU DE NÁUCRATIS. Deipnosophistae (O Banquete dos Eruditos), Livro XV, 677e–f. (Trecho onde Ateneu cita a história de Pancrates, a apresentação do poema a Adriano em Alexandria e a origem da flor Antinoeios).



   A história da flor Antinoeia faz parte do mesmo universo temático e do mesmo autor (Pancrates de Alexandria), mas chegou até nós dividida em duas fontes antigas complemento-simbióticas:

1. O Papiro (P.Oxy. VIII 1085)

O papiro de Oxirrinco preserva as cenas da caçada ao leão (o confronto heroico no deserto líbio). Por ser um fragmento rasgado, a parte final da metamorfose do sangue na flor não sobreviveu na folha física de papiro que temos.

2. O Texto de Ateneu (Deipnosophistae, XV, 677e–f)

A narrativa do surgimento da flor sobreviveu graças ao escritor grego Ateneu de Náucratis (século III d.C.), que em sua obra O Banquete dos Eruditos cita explicitamente o poema de Pancrates e explica a origem da flor:

Citação de Ateneu (Livro XV, 677e–f):

«Pancrates, um poeta de Alexandria, mostrou ao imperador Adriano uma espécie de lótus de cor rosada e afirmou que aquela flor devia chamar-se “Antinoeia” (Antinóeios), pois brotara da terra quando esta bebeu o sangue do leão líbio abatido por Antínoo e pelo imperador durante a caça. Adriano, agradado com a invenção e a adulação, concedeu a Pancrates o privilégio de ser sustentado publicamente no Museu de Alexandria.»


Os Versos da Flor (Preservados por Ateneu)

Ateneu preservou também alguns versos do próprio Pancrates nos quais o poeta descreve poeticamente o aparecimento da flor:

 «Tomilho lanoso, o lírio branco, o roxo jacinto,

 as pétalas da celidônia azul e a rosa aberta pelos Zéfiros da primavera...

pois a flor nomeada em homenagem a Antínoo ainda não havia brotado.»


Resumo do Conjunto

 * P.Oxy. VIII 1085: Preserva a narrativa épica da luta e abate da fera por Antínoo e Adriano.

 * Ateneu (Deipnosophistae XV): Preserva a explicação etiológica e a lisonja do poeta, mostrando como o sangue do leão fez nascer o lótus vermelho de Antínoo (Nymphaea lotus / lótus-do-nilo).



Imagem:

Nelumbo nucifera (Lótus de Antínoo).



 


ANTÍNOUS


Palazzo Altemps, parte do Museo Nazionale Romano, em Roma, Itália.



-

ANTINOUS: A POEM


[Original em Inglês]


Under his wet locks Death’s blue paleness wages

Now war upon our pity with sad smile.

Even as he thinks, the lust that is no more

Than a memory of lust revives and takes

His senses by the hand, and his flesh quakes

Till all becomes again what ‘twas before.

The dead body on the bed gets up and lives

Along his every nerve ripped up and twanged,

And a love-o’er-wise and invisible hand

At every body-entrance to his lust

Utters caresses which flit off, yet just

Remain enough to bleed his last nerve’s strand,

O sweet and cruel Parthian fugitives!

He rises, mad, and looks upon his lover,

That now can love nothing but what none know.

Then his cold lips run all the body over —

His lips that scarce remember their warmth, now

So blent with feeling the death they behold;

And so ice-senseless are his lips that, lo!,

He scarce tastes death from the dead body’s cold,

But it seems both are dead or living both

And love is still the Presence and the Mover.

Then his lips cease on the other lips’ cold sloth.

But there the wanting breath reminds his lips

That between him and his boy-love the mist

That comes out of the gods has crept. The tips

Of his fingers, still idly tickling, list

To some flesh-response to their purple mood.

But their love-orison is not understood.

The god is dead whose cult was to be kissed!

He lifts his hand up to where heaven should be

And cries on the mute gods to know his pain.

Lo, list!, o divine watchers of our glee

And sorrow!, list!, he will yield up his reign.

He will live in the deserts and be parched

On the hot sands, he will be beggar and slave;

But give again the boy to be arm-reached!

Forego that space ye meant to be his grave!

Take all the female beauties of the earth!

Take all afar and rend them if ye will!

But, by sweet Ganymede, that Jove found worth

And above Hebe did elect to fill

His cup at his high festivals, and spill

His fairer vice wherefrom comes newer birth-,

The clod of female embraces resolve

To dust, o father of the gods!, but spare

This boy and his white body and golden hair.

Maybe thy newer Ganymede thou meanst

That he should be, and out of jealous care

From Hadrian’s arms to thine his beauty steal’st.

He was a kitten playing with lust, playing

With his own and with Hadrian’s, sometimes one

And sometimes two, now splitting, now one grown,

Now leaving lust, now lust’s high lusts delaying,

Now eyeing lust not wide, but from askance

Jumping round on lust’s half-unexpectance;

Then softly gripping, then with fury holding,

Now playfully playing, now seriously, now lying

By the side of lust looking at it, now spying

Which way to take lust in his lust’s withholding.

Thus did the hours slide from their tangled hands

And from their mixed limbs the moments slip.

Now were his arms dead leaves, now iron bands,

Now were his lips cups, now the things that sip,

Now were his eyes too closed, and now too open,

Now were his ways such as none thought might happen,

Now were his arts a feather and now a whip.

Out of the falling darkness the wind rose

And fell. A voice swooned in the courts below.

And the Emperor slept.

The gods came now

And bore something away, no sense knows how,

On unseen arms of power and repose.


LISBON, 1915.

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ANTÍNOUS


Sob os seus caracóis úmidos, a azul palidez da Morte

Mete agora guerra à nossa piedade com um triste sorriso.

Mesmo enquanto ele pensa, o desejo que já não é

Mais que memória de desejo, aviva-se e toma

Pelos sentidos a sua mão, e a sua carne estremece

Até que tudo volte a ser o que dantes era.

O corpo morto na cama ergue-se e vive

Ao longo de cada nervo seu rasgado e retorcido,

E uma mão sabia-de-amor e invisível

A cada entrada do corpo para a sua luxúria

Sussurra afagos que se esvaem, mas que ainda

Restam quanto baste para sangrar o último fio de nervo,

Ó doces e cruéis fugitivos partos!

Ele ergue-se, louco, e contempla o seu amante,

Que agora nada pode amar senão o que ninguém sabe.

Então os seus lábios frios percorrem o corpo inteiro —

Lábios que mal recordam o seu próprio calor, agora

Tão mesclados de sentir a morte que contemplam;

E tão insensíveis de gelo estão os seus lábios que, eis!,

Mal provam a morte do frio do corpo morto,

Mas parece que ambos estão mortos ou ambos vivos

E o amor é ainda a Presença e o Mover.

Então os seus lábios cessam sobre a fria preguiça dos outros lábios.

Mas ali a falta de hálito lembra aos seus lábios

Que entre ele e o seu rapaz-amor a névoa

Que vem dos deuses se insinuou. As pontas

Dos seus dedos, ainda ociosamente roçando, escutam

Alguma resposta da carne ao seu tom púrpuro.

Mas a sua oração d’amor não é entendida.

O deus está morto cujo culto era ser beijado!

Ele ergue a mão para onde os céus deveriam estar

E clama aos deuses mudos para que conheçam a sua dor.

Eis, ouvi!, ó divinos vigias da nossa alegria

E do nosso pesar!, ouvi!, ele entregará o seu reinado.

Viverá nos desertos e ficará sequioso

Sobre as areias quentes, será mendigo e escravo;

Mas dai-lhe de novo o rapaz ao alcance dos braços!

Renunciai a esse espaço que destinastes para seu túmulo!

Tomai todas as femininas belezas da terra!

Tomai-as de longe e rasgai-as se o quiserdes!

Mas, pelo doce Ganimedes, que Jove achou digno

E acima de Hebe elegeu para encher

A sua taça nos seus altos festivais, e derramar

O seu mais belo vício donde vem um novo nascimento —,

Dissolvei em pó o torrão dos abraços femininos,

Ó pai dos deuses!, mas poupai

Este rapaz e o seu corpo branco e cabelos de ouro.

Talvez o teu novo Ganimedes tenhas pretendido

Que ele fosse, e por ciumenta cautela

Dos braços de Adriano para os teus a sua beleza roubas.

Ele era um gatinho a brincar com o desejo, a brincar

Com o seu e com o de Adriano, às vezes um

E às vezes dois, ora dividindo-se, ora tornando-se um só,

Ora deixando o desejo, ora retendo os altos desejos do desejo,

Ora olhando o desejo não de frente, mas de esgueira

Saltando em redor do desejo meio-inesperado;

Então suavemente prendendo, então com fúria segurando,

Ora brincando em jogo, ora a sério, ora deitado

Ao lado do desejo olhando para ele, ora espiando

Que modo de tomar o desejo na retenção do seu desejo.

Assim deslizavam as horas das suas mãos entrelaçadas

E dos seus membros misturados os momentos escapavam.

Ora os seus braços eram folhas mortas, ora laços de ferro,

Ora os seus lábios eram taças, ora os seres que sorvem,

Ora os seus olhos estavam demasiado fechados, e ora demasiado abertos,

Ora os seus modos eram tais que ninguém pensaria que pudessem ser,

Ora as suas artes eram uma pena e ora um chicote.

Da escuridão cadente o vento ergueu-se

E caiu. Uma voz desmaiou nos pátios abaixo.

E o Imperador dormiu.

Os deuses vieram agora

E levaram algo para longe, nenhum sentido sabe como,

Sobre braços invisíveis de poder e repouso.


LISBOA, 1915.


Versão experimental em português do poema homônimo escrito em ingles por Fernando Pessoa. Lisboa - 1915 ( 1918 ? ).












“Braschi Antinous" ,

Museu do Louvre.













sábado, 17 de outubro de 2026

    Estranho gostar de gente estranha morta. Mas, a partir dessa possibilidade, eu consigo entender que eu gosto do que o outro causa em mim como ideia. O outro é além da minha apreensão, e, talvez até dele próprio, assim como eu não sei por inteiro quem sou, porque ainda não me concluí nem para mim.  Então, depois do susto de supor um protocolo para gostar de alguém, depois de descobrir: que tanto o outro quanto eu somos maiores do que nos supomos, enfim, me sinto livre para gostar sem exigir de mim a prova de qualquer sensatez.


A James Dean - um gênio rebelde e controverso e às outras pessoas que eu gostei sem causa aparente.




 

Natureza Viva com Bolhas de Sabão 



sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Autorretrato - à toa 
Grafite sobre A4
Juiz de Fora - MG / Brasil 
16 Out 2026

Fotografia 


Com filtro Snapseed

 

Com filtro Meta IA




quarta-feira, 14 de outubro de 2026










 

 






 Por que trabalhar? Versus trabalho.


  Meu comentário em postagem relacionada ao tema trabalho.


  O trabalho não me parece uma causa em si da experiência humana de existir, o trabalho tem por finalidade tornar a existência melhor, dito isso, fica explícito o equívoco em equivaler o trabalho ao conjunto das experiências humanas prazerosas e significativas, essas sim, servem como justificativas ao trabalhar. Priorizar o trabalho é uma distorção da causa que o origina: suprir os anseios e ampliar os significados da existência humana. O contraponto inevitável é constatar que quase todas relações sociais têm o dinheiro como fator de potencial liberdade de escolha, então, nós somos levados à aceitação, para permanecermos na sociedade progressista, urbana e contemporânea.


O porquê trabalhamos é superior ao trabalhar.






terça-feira, 13 de outubro de 2026

   Antinous ( 111 - 130 / Era Comum ) foi um jovem amante do Imperador Adriano inicialmente divinizado no Leste Grego e Oeste Latino, algumas vezes celebrado como uma divindade e outras como um herói.  


   Atualmente, a partir de evidências históricas e arqueológicas de sua existência e cultos genuínos, atualizações de fé e de religiosidade mais abrangentes têm encontrado legitimidade e respaldo para se constituirem.




Um Jardim de Delícias



Difícil demais estar desperto.

   Minha continua gratidão à possibilidade de sonhar ao dormir; a natureza ajeita tudo... às vezes tenho sonhos tão paradisíacos que me decepciono ao acordar. Além disso, é verdade que ao ter consciência que estou sonhando, eu me delicio com tudo que me satisfaz sem nenhum receio de consequências; enfim, o sonho é inteiramente meu, então, tem que ser bom. Mas, sinceramente eu não sou malévolo ou egoísta, meu sonho também tem como característica o consenso em satisfação entre as outras meras aparências de mim para mim; exceto quando preciso me livrar de um pesadelo e tenho consciência plena de tratar-se de um sonho, nessas ocasiões, eu tento tornar-me o monstro para monstro, caso eu não consiga dissuadi-lo de atormentar-me e porque ele é uma mera projeção da minha mente sonhando, eu posso: desfazê-lo sem pesar.

   Atualmente eu cheguei à conclusão que, em parte, a causa do meu entristecimento e minha irritação é ter dificuldade para dormir e, também, acordar dos sonhos infinitamente melhores que minha vida desperto.   O que me consola é pensar que tenho um trabalho que preserva minha liberdade descomprometida com sectarismos ideológicos sociais, irracionais e inadequados à minha satisfação plena - porém, me mantendo em harmonia com a ordem pública -, o trabalho me garante algum espaço para ter esperanças de melhorar a vida desperto e também ter alguns momentos de satisfação ao sonhar.

   Tenho receio que em algum tempo a sociedade possa se tornar inabitável para seres humanos existirem em potencial e prazer, e, caso essa possibilidade ocorra, qualquer: delírio, alienação ou simulação virtual será melhor escolha em comparação à vida desperto.

   Minha hipótese escatológica mais agradável é supor que após a vida, eu existirei como algo semelhante a um sonho e plenamente consciente, para saborear todas as delícias que eu quiser com liberdade.  Óbvio, que essa hipótese não excluí ser um sonho compartilhado com outros sonhadores, exceto com os que inconvenientes.

domingo, 11 de outubro de 2026

Mantra do Amor Romântico Abrangente

 In Progress.


Esse mantra é uma composição contemporânea minha, que tem como base a métrica compositiva tradicional do Gayatri, no entanto, ajustando termos e conceitos à atual civilização global e à busca por referências mais abrangentes e acolhedoras, por exemplo, ao pensarmos no amor entre namorados - por novos ícones, para uma nova sociedade.


Peço que considere a intenção mais importante que qualquer sentido de patrimônio cultural, tradição ou território, vivemos trocas constantes e em fronteiras não restritas à uma época ou à uma geografia. Justamente e também por isso, precisamos reiventarmos ideias e todo o material que às estruturam.


• Uma versão possível em português:


" ​Nós conhecemos a Alma do Amor Divino.

Meditamos sobre o amor mútuo e igualmente compartilhado.

Que esse Amor / Desejo Divino ilumine e impulsione nossa mente. "


Que possa trazer benefícios aos seres sencientes nesta e em épocas futuras.


Post Scriptum 

Por que em sânscrito? Por estar entre as línguas originárias e tendo contribuído para surgimento de inúmeros idiomas em todo o planeta Terra. E, também, por afinidade pessoal.






 

Ao Amor Sincero e Recíproco

Aos Eternos Românticos

A ti, Agni, testemunha sagrada das alianças e fogo da transformação;

A ti, Exu, força vital da comunicação e do desejo nas encruzilhadas;

A ti, Baco, senhor do êxtase e do afeto sem grilhões;

A ti, Hermes, mensageiro das pontes e dos encontros sinceros;

A ti, Afrodite, que ouviste o sincero clamor de Safo;

A ti, Eros, ideal divinizado do amado;

A ti, Pothos, viva chama do amor e do desejo entre iguais;

A vós, Zeus e Ganimedes, Apolo e Jacinto, paixão sagrada gravada nos mitos;

A ti, Poseidon Phutalmios, patrono dos ritos e da maturação do jovem;

A ti, Kamadeva, que acendes a paixão e a devoção nos corações;

A ti, Rati, senhora do deleite e da união amorosa;

A ti, Tu’er Shen, patrono e guardião do amor romântico entre homens;

A ti, Inanna, rainha do céu, do desejo e da transgressão sagrada;

A ti, Ishtar, senhora da beleza e do querer sem amarras; perdoe a ofensa de Gilgámesh; 

A ti, Hathor, soberana da dança, da alegria e do encanto;

A ti, Oxum, senhora da doçura, do brilho das águas e do afeto verdadeiro;

A ti, Bes, guardião do carinho e da proteção do lar;

A ti, Erzulie Freda, senhora do amor radiante, da paixão e do refinamento;

A ti, Freyja, senhora do desejo, do amor livre e da paixão sagrada;

A ti, Obatala, que em tua essência amaste a alma do teu igual;

A ti, Olokun, cujo amor pelas profundezas foi abençoado na criação;

A ti, Pomba Gira, senhora que acolhes e proteges os amores incompreendidos;

A ti, Rudá, que acendes no peito a saudade e o querer do amado;

A ti, Makanikeoe, companheiro leal e devoção afetiva a Kanekoa;

A ti, Laka, senhora do afeto, do corpo e da graça em movimento;

A ti, Ungud, serpente sagrada da criação e da fluidez divina do ser;

A ti, Malyari, o Poderoso, honrado por sacerdotisas e xamãs de gênero sagrado;

A ti, Xochiquetzal, senhora das flores e da ambivalência amorosa;

A ti, Xochipilli, príncipe dos prazeres, da dança e do amor florido entre homens;

A ti, Aizen Myōō, que transmutas a paixão em amor puro e livre de posse;

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A todos os que, em qualquer tempo e em qualquer terra, com sinceridade amaram e rogaram por um amor verdadeiro e recíproco:

Que vossas vozes se entrelacem à minha e às vozes de incontáveis outros, não como um clamor de captura ou posse, mas como uma declaração de: livre, plena e sincera abertura ao amor verdadeiro e recíproco.

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Composição: Og Esteves Guedes

Data: 11 de outubro de 2026


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Glossário 

Abertura e Invocação dos Caminhos

· Agni — Índia (Védica / Hinduísmo) | Fogo sagrado, testemunha dos ritos e alianças.

· Exu — Iorubá / Afro-brasileira (Candomblé e Umbanda) | Guardião dos caminhos, comunicação e força vital do desejo.

· Baco / Dioniso — Roma / Grécia | Deus do êxtase, da libertação dos estigmas e dos afetos sem amarras.

· Hermes — Grécia | Mensageiro dos encontros, das pontes e do trânsito afetuoso.

Europa (Greco-Romana e Nórdica)

· Afrodite — Grécia | Deusa do amor, invocada na poesia homoerótica de Safo de Lesbos.

· Eros — Grécia | Força primordial do amor e da atração.

· Pothos — Grécia | Personificação do desejo, da saudade amorosa e da atração entre iguais.

· Zeus & Ganimedes — Grécia | Símbolo mítico do amor e devoção entre o divino e o jovem.

· Apolo & Jacinto — Grécia | O amor romântico e trágico entre o deus da luz e o jovem espartano.

· Poseidon (Phutalmios) — Grécia | Patrono da maturação da juventude e ritos de passagem.

· Freyja — Nórdica-germânica | Deusa do amor, da paixão, da sexualidade e da autonomia.

Ásia

· Kamadeva — Índia | Deus do amor e da atração amorosa.

· Rati — Índia | Deusa do prazer, do desejo e da união afetiva.

· Tu'er Shen — China | O "Deus Coelho", patrono e guardião das relações amorosas entre homens.

· Inanna — Mesopotâmia (Suméria) | Rainha do céu, amor, desejo e transformação de papéis de gênero.

· Ishtar — Mesopotâmia (Acádia) | Deusa da beleza, da paixão e do amor sem limites.

· Malyari — Filipinas (Tradição Sambal) | Divindade suprema cujos ritos eram intermediados por sacerdotes/xamãs de expressão de gênero diversa (Babaylan).

· Aizen Myōō — Japão (Budismo Esotérico / Shingon) | Rei da Sabedoria que transforma o desejo sensual em iluminação e amor compassivo sem apego.

África e Caribe (Diáspora)

· Hathor — Egito | Deusa da dança, da música, da beleza e do amor.

· Bes — Egito | Protetor do lar, do afeto, da alegria e do bem-estar.

· Oxum — Iorubá / Afro-brasileira | Orixá da beleza, da doçura, do amor romântico e das águas doces.

· Obatala (Odduaremu) — Iorubá / Diáspora | Orixá da criação, associado em nuances primordiais ao amor andrógino e essencial.

· Olokun — Iorubá / Diáspora | Divindade das profundezas oceânicas, cujo vínculo primordial com Obatala é abençoado.

· Erzulie Freda — Vudú Haitiano / Benim | Lwa da paixão, da elegância, do amor romântico e da beleza suprema.

Américas

· Pomba Gira — Afro-brasileira (Candomblé e Umbanda) | Entidade protetora do amor, dos desejos sinceros e dos marginalizados.

· Rudá — Tupi-Guarani (Brasil) | Deus do amor, que desperta a saudade no peito dos amantes.

· Xochiquetzal — Asteca (México) | Deusa das flores, do amor, da beleza e da fluidez amorosa.

· Xochipilli — Asteca (México) | Príncipe das flores, dos jogos, da dança e patrono dos afetos entre homens.

Oceania

· Makanikeoe — Havaí (Polinésia) | Espírito do desejo e leal companheiro mítico de Kanekoa (aikāne).

· Laka — Havaí / Polinésia | Deusa da dança hula, da beleza e da energia amorosa da natureza.

· Ungud — Austrália (Tradição Wunambal) | Serpente Arco-Íris andrógina associada à criação e à fluidez primordial da vida.



Referências Bibliográficas

1. Calame, Claude. (1997). Choruses of Young Women in Ancient Greece: Their Morphology, Religious Role, and Social Functions. Rowman & Littlefield.

2. Conner, Randy P.; Sparks, David Hatfield; Sparks, Mariya. (1997). Cassell's Encyclopedia of Queer Myth, Symbol, and Spirit. Cassell.

3. Conner, Randy P.; Sparks, David Hatfield. (2004). Queering Creole Spiritual Traditions: Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender Transgressions in Afro-Indo-European Religions. Routledge.

4. Dover, K. J. (1978). Greek Homosexuality. Harvard University Press.

5. Matory, J. Lorand. (2005). Black Atlantic Religion: Tradition, Transnationalism, and Matriarchy in the Afro-Brazilian Candomblé. Princeton University Press.

6. Sergent, Bernard. (1984). L'homosexualité dans la mythologie grecque. Payot.

7. Szonyi, Michael. (1998). "The Cult of Hu Tianbao and the Cult of the Rabbit God: Same-Sex Love in Fujian". Journal of the History of Sexuality, 8(3), 383–408.




sábado, 10 de outubro de 2026

 Por ocasião do Dia das Crianças no Brasil 


   Vou lembrar o conceito "puer aeternus" - Análise Junguiana.  


   A criança eterna faz representar, justamente, nossa propulsão às novidades, ela está presente em todas as decolagens e mantém-se viva ao longo do voo da existência, porém, às vezes, mais silenciosa na maturidade: para não nos impedir no ajuste de planos de aterrissagem - apesar da constante esperança de continuidade comum às várias crenças da nossa espécie.


   Como complemento, penso que é justo fazer diferença entre: ingenuidade e inocência.  Sob meu ponto de vista, a ingenuidade é o desconhecer um mal que se causa à outra pessoa, enquanto a inocência tem a ver com manutenção do bom caráter, enfim, depois de conhecer a maldade evitá-la e agir com justiça  - sem ter intenção premeditada de prejudicar alguém, exceto por legítima defesa.  Óbvio, a maldade é medida em proporção ao estrago causado ao outro.


   Importante sublinhar que a perda da ingenuidade é desejável e faz parte do desenvolvimento humano. Perder ingenuidade não significa perder a inocência


   Feliz Dia das Crianças: elas representam a ingenuidade, enquanto a mantém.  Depois, nós só podemos - no máximo - sermos inocentes.


Og 😊 


P.s.: na fotografia, dizem que sou eu 😄






Tremoço




   O tremoço é um grão com mais de 4 mil anos de presença histórica na culinária.  Os grãos são muito nutritivos e com muita proteína; estão presentes em praticamente todos os continentes da Terra, e, em alguns continentes desde épocas imemoriais.

• Antes do cozimento colocar os grãos de molho por 24 horas - podem triplicar em volume durante esse processo.

Cozimento prévio: conclui por volta de 40 minutos após a panela dar sinal de pressão.  Em panela comum o tempo será maior.

Dica:  grãos bem cozidos, porém ao dente.

• Depois de cozido deve ficar em demolho(a) por 3, 5 ou 7 dias.  Todo o amargor dos grãos deve ser eliminado por segurança alimentar (alta toxidade).

  Abaixo dicas para o demolha:

• Sugestão: em geladeira, começar o demolho das primeiras trocas de água sem o sal para não confundir seu paladar na verificação do amargor.

   Para o demolho - trocas diárias de água para tirar o amargor - e para a conserva final, as quantidades de sal mudam ligeiramente para garantir o melhor resultado sem salgar muito o grão e antes da hora:

1. Na fase de Demolha (Trocas de água diárias)

   Como essa água será descartada de 2 a 3 vezes por dia, usamos uma quantidade menor de sal apenas para ajudar na osmose:

• Sal Refinado (Iodado ou Rosa Fino): 1 colher de chá cheia (cerca de 5g a 6g) por litro de água.

• Sal Grosso (Rosa ou Marinho): 1 colher de sobremesa rasa por litro de água.

   Existe uma teoria que desaconselha o sal iodado pelo risco de alterar o cor da conserva, mas a quantidade de iodo é pequena e sem prejuízo ao consumo.   Outros dizem que o sal rosa pode deixar resíduos terrosos (cor de terra) - de novo -, nenhum problema, exceto, a possível modificação na aparência do alimento.

2. Na fase de Conserva Final (Para guardar na geladeira)

   A concentração de sal precisa ser maior para conservar o alimento com segurança e dar o sabor característico do petisco:

• Sal Refinado (Iodado ou Rosa Fino): 1 colher de sopa rasa (cerca de 12g a 15g) por litro de água.

• Sal Grosso (Rosa ou Marinho): 1 a 1,5 colher de sopa cheia (cerca de 15g a 20g) por litro de água.

   • Atenção: nenhum grão deve subir acima da linha limite de água da salmora - todos os grãos devem ser afundados na salmora.

   Na etapa da última salmora para a conserva, podem ser acrescentados outros temperos. Conserva-se em geladeira por algumas semanas ou meses.   Seu paladar será o seu juízo.

Post Scriptum

   Outra opção moderna é cumprir corretamente a retirada do amargor, escorrer toda a água, lavar bem os grãos e congelar em pequenos potes - a serem descongelados para o consumo ao longo do dia.

Bon appétit.

Og 😊





sábado, 3 de outubro de 2026

 

   Em alguns momentos eu tenho a sensação que vivemos uma atualização (remake) de um Medievo depois da Pós-modernidade. A fragmentação e relativização dos discursos ainda não serviu à edificação de novos paradigmas satisfatórios, então, passamos a conviver com o convulcionar dos antigos paradigmas, insistindo que eles têm alguma eficiência social. Entretanto, a ausência de novos paradigmas também não serve à ordem pública. Mas, os antigos paradigmas só nos trazem conflitos desde: o interpessoal às guerras.


  Por covardia, escolhemos abandonar a razão e buscarmos conforto nos escombros dos paradigmas: inadequados e/ou ultrapassados para a nova sociedade em que vivemos. Daí surge a sensação de um remake do Medievo - uma estrutura social que se faz a partir de crenças em substituição à razão.