domingo, 18 de outubro de 2026

 


ANTÍNOUS


Palazzo Altemps, parte do Museo Nazionale Romano, em Roma, Itália.



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ANTINOUS: A POEM


[Original em Inglês]


Under his wet locks Death’s blue paleness wages

Now war upon our pity with sad smile.

Even as he thinks, the lust that is no more

Than a memory of lust revives and takes

His senses by the hand, and his flesh quakes

Till all becomes again what ‘twas before.

The dead body on the bed gets up and lives

Along his every nerve ripped up and twanged,

And a love-o’er-wise and invisible hand

At every body-entrance to his lust

Utters caresses which flit off, yet just

Remain enough to bleed his last nerve’s strand,

O sweet and cruel Parthian fugitives!

He rises, mad, and looks upon his lover,

That now can love nothing but what none know.

Then his cold lips run all the body over —

His lips that scarce remember their warmth, now

So blent with feeling the death they behold;

And so ice-senseless are his lips that, lo!,

He scarce tastes death from the dead body’s cold,

But it seems both are dead or living both

And love is still the Presence and the Mover.

Then his lips cease on the other lips’ cold sloth.

But there the wanting breath reminds his lips

That between him and his boy-love the mist

That comes out of the gods has crept. The tips

Of his fingers, still idly tickling, list

To some flesh-response to their purple mood.

But their love-orison is not understood.

The god is dead whose cult was to be kissed!

He lifts his hand up to where heaven should be

And cries on the mute gods to know his pain.

Lo, list!, o divine watchers of our glee

And sorrow!, list!, he will yield up his reign.

He will live in the deserts and be parched

On the hot sands, he will be beggar and slave;

But give again the boy to be arm-reached!

Forego that space ye meant to be his grave!

Take all the female beauties of the earth!

Take all afar and rend them if ye will!

But, by sweet Ganymede, that Jove found worth

And above Hebe did elect to fill

His cup at his high festivals, and spill

His fairer vice wherefrom comes newer birth-,

The clod of female embraces resolve

To dust, o father of the gods!, but spare

This boy and his white body and golden hair.

Maybe thy newer Ganymede thou meanst

That he should be, and out of jealous care

From Hadrian’s arms to thine his beauty steal’st.

He was a kitten playing with lust, playing

With his own and with Hadrian’s, sometimes one

And sometimes two, now splitting, now one grown,

Now leaving lust, now lust’s high lusts delaying,

Now eyeing lust not wide, but from askance

Jumping round on lust’s half-unexpectance;

Then softly gripping, then with fury holding,

Now playfully playing, now seriously, now lying

By the side of lust looking at it, now spying

Which way to take lust in his lust’s withholding.

Thus did the hours slide from their tangled hands

And from their mixed limbs the moments slip.

Now were his arms dead leaves, now iron bands,

Now were his lips cups, now the things that sip,

Now were his eyes too closed, and now too open,

Now were his ways such as none thought might happen,

Now were his arts a feather and now a whip.

Out of the falling darkness the wind rose

And fell. A voice swooned in the courts below.

And the Emperor slept.

The gods came now

And bore something away, no sense knows how,

On unseen arms of power and repose.


LISBON, 1915.

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ANTÍNOUS


Sob os seus caracóis úmidos, a azul palidez da Morte

Mete agora guerra à nossa piedade com um triste sorriso.

Mesmo enquanto ele pensa, o desejo que já não é

Mais que memória de desejo, aviva-se e toma

Pelos sentidos a sua mão, e a sua carne estremece

Até que tudo volte a ser o que dantes era.

O corpo morto na cama ergue-se e vive

Ao longo de cada nervo seu rasgado e retorcido,

E uma mão sabia-de-amor e invisível

A cada entrada do corpo para a sua luxúria

Sussurra afagos que se esvaem, mas que ainda

Restam quanto baste para sangrar o último fio de nervo,

Ó doces e cruéis fugitivos partos!

Ele ergue-se, louco, e contempla o seu amante,

Que agora nada pode amar senão o que ninguém sabe.

Então os seus lábios frios percorrem o corpo inteiro —

Lábios que mal recordam o seu próprio calor, agora

Tão mesclados de sentir a morte que contemplam;

E tão insensíveis de gelo estão os seus lábios que, eis!,

Mal provam a morte do frio do corpo morto,

Mas parece que ambos estão mortos ou ambos vivos

E o amor é ainda a Presença e o Mover.

Então os seus lábios cessam sobre a fria preguiça dos outros lábios.

Mas ali a falta de hálito lembra aos seus lábios

Que entre ele e o seu rapaz-amor a névoa

Que vem dos deuses se insinuou. As pontas

Dos seus dedos, ainda ociosamente roçando, escutam

Alguma resposta da carne ao seu tom púrpuro.

Mas a sua oração d’amor não é entendida.

O deus está morto cujo culto era ser beijado!

Ele ergue a mão para onde os céus deveriam estar

E clama aos deuses mudos para que conheçam a sua dor.

Eis, ouvi!, ó divinos vigias da nossa alegria

E do nosso pesar!, ouvi!, ele entregará o seu reinado.

Viverá nos desertos e ficará sequioso

Sobre as areias quentes, será mendigo e escravo;

Mas dai-lhe de novo o rapaz ao alcance dos braços!

Renunciai a esse espaço que destinastes para seu túmulo!

Tomai todas as femininas belezas da terra!

Tomai-as de longe e rasgai-as se o quiserdes!

Mas, pelo doce Ganimedes, que Jove achou digno

E acima de Hebe elegeu para encher

A sua taça nos seus altos festivais, e derramar

O seu mais belo vício donde vem um novo nascimento —,

Dissolvei em pó o torrão dos abraços femininos,

Ó pai dos deuses!, mas poupai

Este rapaz e o seu corpo branco e cabelos de ouro.

Talvez o teu novo Ganimedes tenhas pretendido

Que ele fosse, e por ciumenta cautela

Dos braços de Adriano para os teus a sua beleza roubas.

Ele era um gatinho a brincar com o desejo, a brincar

Com o seu e com o de Adriano, às vezes um

E às vezes dois, ora dividindo-se, ora tornando-se um só,

Ora deixando o desejo, ora retendo os altos desejos do desejo,

Ora olhando o desejo não de frente, mas de esgueira

Saltando em redor do desejo meio-inesperado;

Então suavemente prendendo, então com fúria segurando,

Ora brincando em jogo, ora a sério, ora deitado

Ao lado do desejo olhando para ele, ora espiando

Que modo de tomar o desejo na retenção do seu desejo.

Assim deslizavam as horas das suas mãos entrelaçadas

E dos seus membros misturados os momentos escapavam.

Ora os seus braços eram folhas mortas, ora laços de ferro,

Ora os seus lábios eram taças, ora os seres que sorvem,

Ora os seus olhos estavam demasiado fechados, e ora demasiado abertos,

Ora os seus modos eram tais que ninguém pensaria que pudessem ser,

Ora as suas artes eram uma pena e ora um chicote.

Da escuridão cadente o vento ergueu-se

E caiu. Uma voz desmaiou nos pátios abaixo.

E o Imperador dormiu.

Os deuses vieram agora

E levaram algo para longe, nenhum sentido sabe como,

Sobre braços invisíveis de poder e repouso.


LISBOA, 1915.


Versão experimental em português do poema homônimo escrito em ingles por Fernando Pessoa. Lisboa - 1915 ( 1918 ? ).












“Braschi Antinous" ,

Museu do Louvre.













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