quinta-feira, 5 de janeiro de 2017


Por que deixa cada sonho incompleto à fronteira entre realidade e delírio? 

Senão para que te chamem paixão.

Eu vi teus olhos debruçados sobre alguma coisa incerta e achei que eu pudesse ser um destino ou esclarecimento. 

Mas era duplamente vão. 
Teus olhos mergulham em abismo, tão úteis como clarabóias desafogando as almas nos prédios.

- Eu quase não sei como me mexer quando te vejo.

Talvez só eu seja impermanente. 

Enquanto você continua chegando a tantos outros lugares eu fico em adeus ou aceno calado, porque você só partiu em uma parte.

Ao que nos causa amar:

- Por que recolhe tão jovens os que te quiseram?
- Planta a tempo os que te quiseram colher?

À contradição:

- E se fosse diferente? 
- Se acaso uma única vez fosse o horizonte olhando para mim?

Sobre ensaio da hipótese:

Eu pediria calma ao horizonte e eu diria:
Se ao mar, vou construir barco.
Em terra, entre nós é o tempo.

E o tempo é sempre favorável, enfim foi o tempo que nos fez para ambos agora.

Entre nós medimos a distância exata do quanto nos desejamos e chegar é fácil diante disso.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017



Todos os deuses nos aguardam à deriva.

Indiferente ao significado ou à credulidade,
a cada época e no máximo todos diferentes: sentidos, potências, deuses ou evidências são estimativas e tempos sobre naufragar em vão.

O horizonte ainda é um fim em nós, apesar de toda circunferência que inventamos para nos esquivar.

Por isso, me alcance tuas mãos e não porque sirvam ao impedimento da nossa condição de ir, mas porque significou termos sido. Último ato de solidariedade.

E se o tempo me tira tudo por um lado, por outro me devolve o mistério dos deuses que me querem à deriva: sendo, pensando ou sentindo.

Quem sabe até descobrirmos que o porto somos nós e que talvez algo como âncora durma no abraço dedicado às velas cansadas ou descobridoras da condição de terem sido só barco.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016




O tempo é todo:

Opaco;
Denso;
Volumoso...


O tempo é todo:

Táctil;
Saboroso;
Olfativo;
Audível;
Visível...


O tempo é todo:

Largura;
Altura;
Profundidade;
Peso e todas outras medidas que existem.


Enfim, o tempo é todo acumulativo, 
tanto quando se perde como quando se ganha.


E porque é vazia de todas essas qualidades e quaisquer outras a mente é capaz de se deixar ocupar por cada uma delas.

Tão pouco a mente é um lugar que acontece em nós, mas é ser um ponto de intersecção e autoreferente.

A memória é uma filha falante desse encontro.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016


Desarrume a cama antes que eu chegue,
porque eu preciso caber entre as texturas e ter a medida da sua ocasião mais espontânea.

Não vai ter amanhã se terminamos cada instante sedentos do próximo, então seremos nós moto continuum do existir.

Em que tempo e espaço somos coincidentes e mutuamente desejantes? É preciso um buraco negro em cada peito nosso.

Não, por mais que inventem palavras e conceitos há alguma coisa que ainda insiste em existir como pele e nisso moram os plurais.


             Imagem: Zona Diversa - MX

sábado, 24 de dezembro de 2016


Para todos aqueles que só acreditam na versão pessoal divulgada como verdade inerente à condição de ser, ofereço a contradição arquitetônica.

Não se enganem, os vitorianos achavam que casamento era sociedade de bens, os românticos morreram em razão de valorizarem o oposto: o sentir... se vocês se querem acomodados, okay... mas deixem sonhar os capazes e que os 'cemitérios'* abriguem os cômodos.

Não queiram a atualidade como ideia, pensamento, princípio e valores conceituais ou materiais semelhantes à uma vala, que como 'por fim' cabem todos e sem prospecção de outra coisa além do que nós enxergamos agora, enfim ser isso é arrogância.

Se pegarmos o radical 'trans' no sentido de ultrapassar, talvez caiba como piada e reflexão histórica uma "trans-pós-modernidade": percebemos a mistura de tempos, estilos, culturas, etc... mas apesar disso talvez algo surja como reflexão nova e sem ser só mistura, com resultados: estéticos, éticos e poéticos.

* Cemitério: lugar em que enxergar está condicionado ao modo de ver de qualquer outro - ao invés dos olhos límpidos de sua própria mente-coração.

A mais real e atual versão de quem somos nasce amanhã, antes disso ninguém me convence - por isso atual.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016



Em mim só mora a pergunta sobre o porquê.
Tudo mais é vão, disfarçado de importante imediato.

Eu também aprendi contar estórias sobre o que nos ocorre e só me assusta achar que você acredita serem suas estórias verdadeiras. Por isso te deixo: sorrindo ou triste colecionar suas próprias emoções.

Do que me ocorre, ainda sou melhor a versão de mim e só espero que outros também sejam em si e para si mesmos.

Sobre as estrelas que apontou compartilhando  comigo, poucas ou quase nenhuma eu vi, e no entanto eu escolhi te ver feliz enquanto acreditava que eu estivesse vendo.

Então dois argumentos te contradizem:
Ser não é algo que caiba na tua caixa sobre a versão do que é ser.
Ser inclui imaginação sobre o imediato.

E toda e qualquer imaginação tem maior grandeza que a sua verdade sobre o que é ser.

- Só não te mando a qualquer lugar, porque aquilo que você é em si, apesar de seus argumentos inclusivos, te faz chegar sozinho ou acompanhado pelos que te acreditam verdade.

Desculpe, não me convenceu

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016


E todos os dias vão te amanhecer, sem ou com esperança.  E da relva sobre a grama cada gota de água antes de chegar ali namorou o sol.

Por isso se acorde tão leve como pássaro e faz até do suspiro de desassossego música. Ou sem acordar, só terá sonambulado.