Eu quero escrever algo por mim, porque só em mim tem o alcance simbólico original e controverso. No entanto, o que escrevo traz em comum o mesmo princípio espontâneo em fluxo e aleatório que dá origem aos sonhos de todas as outras pessoas - isso eu suponho. E, enfim: nada estranho evocar o final no início de um breve comentário de um sonho, porque a linha dos fatos no tempo organizada em sequência, só acontece nos primeiros instantes depois de acordarmos - antes vivemos o sonhar em sobreposições de tempos, símbolos e ocorrências. Mas, na fronteira entre o dormir e o acordar juntamos fragmentos possíveis, e, para dizer a nós mesmos uma estória que nos sirva de sonho.
Nos encontramos pela segunda vez em sonho, sendo que do primeiro encontro só me recordo de uma caminhada juntos. Dessa vez foi tão inusitado quanto o primeiro sonho, porém com mais fragmentos. Me parece que eu já estava em um lugar semelhante à uma pousada ou talvez uma pequena vila ou uma mansão com muitos quartos. Então, surpreendentemente você chegou e, ainda que não nos conhecêssemos, nos reconhecemos pelo olhar e nos aceitamos íntimos, como se fosse dispensável uma apresentação formal. Logo depois, nós saímos do ambiente que estávamos a sós e fomos ao encontro de várias outras pessoas nos diversos ambientes internos e externos comuns à essa arquitetura. E é durante esse nosso passeio que uma outra camada narrativa se acrescenta ao sonho: as pessoas eram magnetizadas pela sua presença e me olhavam com desdém ou como um idiota ingênuo por me supor íntimo; as pessoas ao longo da nossa caminhada faziam desacreditar nosso reconhecimento inicial sem palavras de quando estávamos a sós. Então, parece que em você e em mim a descrença gradualmente ressoa em nossas escolhas e atitudes, de repente, você some e eu fico só entre estranhos que, aos cantos, riem de mim. Quando eu pergunto por você aos outros hóspedes, me respondem como confirmando minha desimportância, algo entre o consolar e o esclarecer: - Está trabalhando, fazendo o que precisa e tem que fazer. Mas, eu em circumambulação constante, entre diversos ambientes e várias pessoas, eu não entendia, porque aquele lugar não me lembrava em nada uma ocasião de trabalho. Quando caminhei em direção à saída principal que levava à rua, te encontrei retornando à hospedaria: você estendeu um embrulho de papel e abriu me mostrando um lanche que você parecia já ter mordiscado, então, olhando nos meu olhos de novo sem palavras como no início do sonho, disse:
- Trouxe pra você.
Nenhum comentário:
Postar um comentário