domingo, 23 de julho de 2017


Em comum a todos os momentos, não importa se acordado ou dormindo: eu desejo. Há quem me julgue e eu continuo invariavelmente autêntico.

Dá - me um fim se o desejo não for o propósito. E se através dele alcanço outro sou menos egoísta do que aquele que busca na divindade refúgio de si mesmo, porque ainda é um querer - se bem mais que aos outros.

Amanheço lidando comigo em meio aos outros. E então:  - Bom dia! ( no calor do momento ). Bom dia é um ato de anistia solidária sobre amanhecer.

quarta-feira, 19 de julho de 2017


De tudo que não tem vida o tempo, o sonho e o desejo são os mais cheios de si mesmos; sem nada acontecer se acumulam.

Horizonte, abismo, beira, janela, fronteira são nomes a serviço de quem ultrapassa pessoas, ideias e coisas.

- Não se ressinta.
- Mas como? Se também sou a medida da memória.

A circunstância e o tempo vestem os seres com personagens que encurtem o caminho no qual se apresentam o amor, a fúria e os entremeios, por isso não se ressinta... não poderia ter sido só você ou mesmo nós, porque ser é uma satisfação econômica do contexto expressando vontades.

Os demônios carregam malas cheias de lindas fantasias e perigosas armadilhas, enquanto os deuses se deleitam agora e sonham com amanhã - enfim: são deuses porque se deleitam - ; mas sem exceção todos eles só vivem com teu consentimento dormindo no seu peito.

- Ser é um barco ao nosso comando e a serviço de tudo que não somos. Ser é um exercício por não ser.

No barco alheio: glória e inglória será, enquanto evitamento de total naufrágio no tempo e circunstâncias.

Em tudo que ganhar terá um sorriso de um demônio. No beijo, abraço ou sexo terá sido encontro de deuses. Ser é apesar disso, aquela parte que você encontra-se entre tudo que diz adeus.

sábado, 24 de junho de 2017


Se você me diz que preciso mudar, então eu procuro caixas que caibam cada quinquilharia que eu fui; viro arquivo.

Me diz para continuar, então:
mão,
braço,
antebraço
e trapézio
formarão o ângulo da caneca de café de mais um dia.

domingo, 18 de junho de 2017



Na minha idade eu já luto para evitar o pior.

Os mais novos que eu lutam por seus sonhos.

Os mais novos que estes ainda flutuam.

Submerge o tempo.
E e os mais velhos avisam: sobre o que faz submergir.

Quanto mais te avisam que é menos natural à cada época será menos por si e mais um alerta sobre o tempo: - Urgente, ontem vi um ser humano viver em horário de trabalho.

Em alguns lugares viver é um sonho que talvez seja um excedente que o trabalho torne possível somente ao final da vida.

Nasce uma criança: e mais um organograma veio ao mundo.

Sobre viver, guardamos vivos só aqueles que não couberam nos planos do tempo. E é como se o tempo se dividisse para que eles passem.

À margem de tudo isso estão os animais e as florestas. O pássaro se agita ainda pelo gosto de bicar a fruta hoje, ninguém convenceu o pássaro a voar para que talvez um dia bique a fruta. Ainda é pelo gosto de bicar a fruta hoje que tiramos de nós que o pássaro se agita.


                             Imagem: em Rainfall 憂鬱


A primeira parte da vida é sobre chegadas e descobertas, a segunda parte é sobre os sonhos e a terceira é sobre preparar despedidas. No mais ou é velório ou é festa, nem todos estão na mesma parte da história.

E cada eu acontece em segredo misturando cada uma dessas partes.

sábado, 10 de junho de 2017


A vida é uma ponte entre o êxtase e a indiferença... mas uma questão é fundamental, a vida é uma ponte entre dois lados opostos que não servem de margem continental... só quem está na ponte vê enquanto vive e se você estiver de um dos dois lados é naufrágio.

A vida é uma ponte que finge ser um barco porque os vivos estão no máximo em equilíbrio e viver não é sobre chegar em algum lugar... chegar é estar em um dos lados entre dois lados quaisquer e chegar é sempre um pouco sobre naufragar.

A vida é a parte na qual dicotomias são ilustrações lógicas... se estiver em um só lado naufragou em uma ilusão.

Uma vaga impressão sobre existir e se fazer mais tênue a cada dia, mais que isso é um delírio que o tempo irá sujeitar ao julgamento.

Vejamos numa imagem: a vida é o outono, mas eu me vejo como folha e acho que a vida é estar ainda presa à árvore ou em queda livre chegar no chão. Mas a vida é o outono.

terça-feira, 30 de maio de 2017



À noite na estrada
eu sempre estive vazio e pensativo.

Algumas vezes criei raízes em todas as direções, então sempre que só existo em memórias volto a esses momentos.

A vida é egoísta e sobre si mesma, por isso inventamos tantas metafísicas.

Sabe o que me assusta em alguns animais amáveis? Quase nunca o momento é sobre eles... como se vivessem naturalmente amando.

Põe o copo à mesa como quem faz pausa e nesse segundo é inteiro.

Amor é uma dor que existe circular e central ao peito, pode se esvaziar de tempos em tempos num suspiro: passado, presente ou futuro.


                     Imagem: Rafał von Czakata